Você detesta seu banco? Quatro grandes do Reino Unido na mira do app Mondo

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(SÃO PAULO) – Em uma abafada tarde de julho, Tom Blomfield sai dos escritórios do Banco da Inglaterra (BOE, na sigla em inglês), no coração do distrito financeiro de Londres, e imediatamente tira o paletó. Blomfield, o barbudo CEO de 29 anos da Mondo, uma startup de banco por smartphone que está solicitando uma licença para operar no Reino Unido, não é do tipo que usa terno. Ele está ansioso para voltar para seu local de trabalho em Clerkenwell e tomar uma cerveja para comemorar o fato de a Mondo ter vencido um grande obstáculo no caminho para obter a licença bancária.

Blomfield e sua equipe acabaram de passar duas horas sendo interrogados por oito reguladores do Banco da Inglaterra e da Autoridade de Conduta Financeira (FCA, na sigla em inglês), informa a revista Bloomberg Markets na edição de outubro. As autoridades perguntaram como Mondo pretende atrair clientes e manter a viabilidade financeira. Depois de analisar a inscrição de 250 páginas da Mondo, o grupo inquiriu por que Blomfield queria administrar um banco. “Eles disseram que ele não parecia um banqueiro comum”, relembra a presidente do conselho da Mondo Denise Kingsmill que, como membro da Câmara dos Lordes e ex-vice-presidente do conselho da Comissão de Concorrência do Reino Unido, acrescentou um toque de sobriedade à apresentação.

Blomfield já sabia o que responder: “Eu disse que queria administrar um novo tipo de banco”.

Quando não está tentando cativar reguladores, Blomfield demonstra o tipo de paixão – e de irritação – necessário para construir um banco do zero. Sua lista de queixas em relação aos grandes credores é conhecida pela maioria dos clientes: horas de papelada para abrir uma conta ou pedir um empréstimo, tarifas exorbitantes para usar o cartão de crédito no exterior, cobranças onerosas por saldo negativo e aplicativos móveis ultrapassados. “Acordo e penso: ‘Meu banco é tão ruim. Esses caras são dinossauros!’”, disse Blomfield. “Isso provoca um impacto em mim, em minha família, em todos os meus amigos. Todo mundo precisa usar o sistema bancário e ele não funciona”.

Blomfield quer que Mondo seja o Google ou o Facebook do sistema bancário, com contas tão fáceis de usar quanto um e-mail. “Visamos um grupo demográfico que valoriza poder fazer tudo pelo smartphone em cinco segundos”, disse ele.

Comunicação em tempo real

Quanto ao sistema bancário britânico, essa inovação parece estar chegando muito atrasada. Quatro grandes bancos — Barclays, HSBC Holdings, Royal Bank of Scotland Group e Lloyds Banking Group — controlam 77 por cento das 65 milhões de contas pessoais existentes no Reino Unido. Os clientes não estão muito contentes com as opções disponíveis. Apenas 60 por cento dizem que estão satisfeitos com seus banco, conforme uma pesquisa realizada em 2014 pela empresa de consultoria Accenture.

Embora a tecnologia tenha mudado todos os aspectos de nossas vidas, Blomfield diz que os serviços bancários para os clientes ficaram congelados no tempo. Os bancos continuam oferecendo aos clientes uma lista estática de depósitos e saques, em vez de conceder-lhes atualizações imediatas ou ferramentas úteis para analisar os gastos ou economizar. Em um mundo de mensagens instantâneas, muitos credores não se comunicam em tempo real. O banco que Blomfield usa atualmente (que ele não quis identificar) demorou duas semanas para avisá-lo de que ele tinha um saldo negativo de 800 libras e depois lhe cobrou 20 libras. “Os bancos metem a mão em nosso bolso constantemente para tirar dinheiro”, disse ele.

O aplicativo Mondo foi criado para avisar se você está com um problema. Você poderá configurar notificações em tempo real que avisam quanto você gastou por dia ou se seu saldo está perto do vermelho. Se você precisar de 500 libras emprestadas para o dia do pagamento, Mondo lhe avisa quanto custará um crédito de curto prazo, ao invés de lhe cobrar depois do fato.

Recorrendo ao seu telefone, Jason Bates, 43, um dos fundadores da Mondo e diretor de relações com o cliente, mostra o protótipo do aplicativo. Ele tinha acabado de comer um hambúrguer com a esposa no Five Guys, no Soho, e a compra apareceu imediatamente em sua conta, com um mapa dos lugares onde ele usou o cartão Mondo. Passando o dedo na tela, ele demonstra como desativar o cartão se você perder sua carteira e como reativá-lo imediatamente se você a encontrar. Você pode até bloquear seu cartão no bar para evitar beber.

Monitorando suas contas regulares, Mondo pode avisar se ocorrer algo incomum, como uma cobrança de serviços mais alta do que o normal. Essa forma mais inteligente de utilizar as informações pode ajudar a identificar fraudes, disse Bates. “Vemos que seu telefone está em Manchester, mas seu cartão estava sendo usado em Londres”, disse ele. “Podemos bloquear seu cartão e enviar uma mensagem de texto para lhe avisar que há algo estranho e pedir que você confirme”.

‘Mudança de geração’

Blomfield e Bates dizem que Mondo poderia cobrar tarifas muito mais baixas e ainda assim se tornar lucrativa porque sua base de custos é muito menor do que a carregada pelos grandes bancos. Os credores à moda antiga são submetidos aos custos de manutenção das agências e de atualização dos sistemas de TI obsoletos. Os sistemas informáticos de back-end que processam as transações chegam a ser da década de 1970 e sofrem crises, disse David Parker, diretor do setor bancário da Accenture, em Londres. No ano passado, os reguladores britânicos multaram o Royal Bank of Scotland (RBS) em 56 milhões de libras por uma falha informática ocorrida em 2012 que deixou 6,5 milhões de clientes sem acesso a suas contas durante semanas quando um prestador de serviços atualizou o software. Os problemas “revelaram debilidades inaceitáveis em nossos sistemas”, disse Philip Hampton, presidente do conselho do RBS.

“É difícil desenvolver um aplicativo fantástico se o sistema bancário nuclear é horrível”, disse Parker. “Os bancos precisam mudar rapidamente ou correrão o risco de que seus clientes desertem”.

Nem todos acreditam que os bancos mais tecnológicos irão atrair um número suficiente de clientes dos quatro grandes credores para se tornarem agentes de peso. Talvez os novos bancos com tecnologia financeira tenham dificuldades para conquistar mais do que apenas os “gênios da computação”, disse James Moed, um consultor para startups de tecnologia financeira e ex-diretor da IDEO, uma criadora de serviços financeiros com sede em Londres. “A maioria das pessoas acha que administrar o próprio dinheiro é entediante e considera que os bancos são uma espécie de empresa de serviço de utilidade pública”, disse Moed. “Não tenho certeza de que aplicativos excelentes bastarão para motivar as pessoas a trocarem”.

Blomfield admite que Mondo não é para qualquer um. “Minha avó não usaria esse banco”, disse ele. “Mas um grande segmento da população usaria”.

Ele fez um paralelo entre os colossos do setor bancário e a locadora Blockbuster Video, enquanto que startups como a Mondo seriam como a Netflix. Com a tecnologia certa e uma regulação de espírito aberto, diz Blomfield, é possível provocar uma ruptura até mesmo em um setor tão sério e consolidado quanto o banco de varejo. “Nós acreditamos”, diz o cara que não parece um banqueiro comum, “que haverá uma mudança de geração no modo em que os bancos funcionam”.

Por Stephanie Baker