Tragédia de Brumadinho: Hipocrisia e a morte da Razoabilidade

Minha percepção é que os brasileiros reagem histericamente e sem razoabilidade alguma diante de um problema extremamente complexo do qual ainda sequer sabemos o tamanho. Já alguns políticos e  jornalistas agem como sempre: de forma desonesta, cínica e hipócrita. Por Guilherme G. Villani Confesso que em um primeiro momento me deixei levar pela presunção. Igualmente…

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Minha percepção é que os brasileiros reagem histericamente e sem razoabilidade alguma diante de um problema extremamente complexo do qual ainda sequer sabemos o tamanho. Já alguns políticos e  jornalistas agem como sempre: de forma desonesta, cínica e hipócrita.

Por Guilherme G. Villani

Confesso que em um primeiro momento me deixei levar pela presunção. Igualmente motivado pela perplexidade e magnitude da perda de vidas.

O áudio abaixo de um autor desconhecido me restaurou o bom senso.

Deixarei a transcrição do áudio ao final do texto.

Inicialmente acreditei que se tratava de uma mudança de configuração da barragem, como na tragédia de Mariana. Erro. A barragem estava inativa desde 2015.

Havia um pedido de licenciamento ambiental para desmobilizar a barragem aproveitando os rejeitos da mesma para produzir minério. O método mais moderno hoje é de processamento a seco. Neste método o rejeito é uma montanha de terra, e não uma enorme piscina de lama.

A Vale possui uma estratégia para mudar sua produção para processamento a seco (40% da produção total em 2016) atingindo um nível de 70% de processamento a seco em suas operações até 2022.

Como uma barragem classificada de baixo potencial de risco vitima tantas pessoas, especialmente os funcionários da própria empresa?

O Governador de MG Romeu Zema no minuto 1m12s do video não responde, mas deixa claro que estamos diante de um problema complexo e alterações profundas serão necessárias:

“Quero salientar também que os protocolos, a legislação terá de ser revista, porque esta barragem que rompeu era uma barragem inativa há anos que não recebia mais nenhum tipo de material. Então nós estamos vendo aqui em Minas que os mortos (barragens inativas) estão ressuscitando, o que é muito preocupante. Vai ser necessário rever protocolos porque não podemos ficar sujeitos a que esse tipo de coisa aconteça novamente.”

Não vou perder meu tempo comentando as escrotices de Reinaldo Azevedo, Renan Calheiros entre outros sobre o trágico rompimento. A hipocrisia não merece espaço neste momento.

Eu não acredito em má-fé da empresa, de seu corpo de diretores e funcionários. Segurança vem em primeiro lugar em um ambiente de trabalho de alta periculosidade.

A Vale é um exemplo de desenvolvimento econômico com sustentabilidade. No projeto Carajás, iniciado na década de 80., a única área verde que sobrou na região é justamente a área que a empresa se comprometeu a preservar. A mina em si utiliza uma área de até 2% dessa mancha de floresta na imagem.

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O fato é que essas barragens com método de construção à montante são instáveis e não há nenhuma garantia de segurança. Fato tão evidente quanto os ensinamentos da física aristotélica.

Se precisamos desmobilizar essas barragens, precisaremos aceitar que parte dos milhares de metros cúbicos de rejeitos terão que ser reaproveitados para produzir minério.

Aceitar que precisamos trocar enorme passivos ambientais com alto dano material e humano por passivos ambientais menores e menos instáveis.

O problema que já é grande pode ficar maior se os envolvidos  na solução do problema – engenheiros, biólogos, geógrafos, empresas, comunidades, poder público e representantes políticos – não tiverem o mínimo de senso de proporcionalidade e de complexidade das soluções.

Do contrário, o crítico social H. L. Mencken é quem manterá a razão:  “Para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada.”

Transcrição do áudio:

Essas barragens antigas Ré(interlocutor), essa ai do Feijão por exemplo, tinha a 40 anos…. …foi construída pela Ferteco na época ainda, a Vale comprou a Ferteco na década de 90. Só não tem problemas de engenharia, a metodologia de construção não dava segurança.

E tem mais 400 barragens desta aqui no Estado. Não é que a fiscalização errou ou foi subornada. 

Só pelos funcionários da Vale que trabalham lá e que conhecem de barragem, eles não estariam ali almoçando em baixo da barragem se tivesse uma trinca ou uma situação que demonstrasse algum risco sabe.

É um problema estrutural. Essas barragens são  seguras até o dia que elas caem. E Caem.

Porque a gente pensa que a Samarco foi a primeira mas não foi. Não sei se você vai lembrar de quem 2000 e pouquinhos aqui  (acho que você já estava na Itália) rompeu a de Rio Verde aqui Macacos-MG, morreu gente, desceu rejeitos até perto de Macacos-MG.

Depois em 2007 rompeu uma lá perto de Cataguazes, que era da mineração Rio Pomba, que era uma uma barragem com rejeito muito mais químico. Que não era de ferro, outro tipo de mineiro. O desastre natural foi horroroso mas não morreu gente.

Aí em 2013-14 rompeu da Herculano em Itabirito-MG. Morreu duas pessoas ou três pessoas, funcionários da empresa. Depois Samarco, depois essa. E vai continuar rompendo.

Você pode mudar a legislação, mudar a fiscalização que não vai adiantar. Todas as barragens que rompem tem mesmo método construtivo que é o mais antigo que não é mais praticado que já não pode mais fazer e são arriscadas mesmo, é perigoso.

Mesmo o que você faça constatação que está tudo certo, faça vistoria, audita, faça as obras de manutenção, toma cuidado, olha, fiscaliza, não adianta. É da natureza delas, elas são instáveis qualquer evento pode desestabilizar o que até ontem tava lá estável.

É triste porque esse é o problema, é super arriscado. E aí como fica todo mundo falando que o problema é de fiscalização que é ineficiente,  que “os caras” compram licença, que eles compram o fiscal,  ninguém compra ninguém nessa história Ré (interlocutor). Não é assim que funciona.

Licença ambiental não é o Pimentel (ex-governador) que dá, não é alguém que escolhe que escolhe que pode ser licenciado. É um processo, se você quiser iniciar um empreendimento, tem uma regra. Se você cumprir você tem o direito de ter a licença, você tem direito de empreender.

Igual você querer abrir uma a padaria, você vai lá e monta uma padaria e faz acordo com as normas de vigilância sanitária, o Governador não pode te impedir de ter uma padaria assim como ele não pode impedir que nenhum negócio possa ser colocado de pé.

E as condições de licenciamento hoje de mineração no Brasil elas são, assim, mais difíceis do que na Austrália, no Canadá que são os grandes países mineradores super desenvolvidos e que também tem acidente com barragem.

A gente fica sabendo do que acontece aqui mas no Canadá, na Finlândia, Austrália também rompe (barragens) a cada 2-3 anos.  A barragem dá esse tipo de problema. Para os “antigos” tem isso: É da natureza delas.

E isso faz as coisas serem só piores porque não tem perspectiva de solução, não tem muito o que se pode fazer.

A gente pode mudar o pra frente para frente, como já mudou,  esse tipo de barragem a montante não é mais permitido fazer mas temos aí o passivo (ambiental) no estado com 600 e tantas barragens, isso aí continua. E a maioria delas é arriscada.

Tem é que descomissionar, tirar isso tudo lá.

Aliás, o licenciamento da Vale que foi votado agora em dezembro e começou em 2015, ele era a expansão da mina e o descomissionamento da barragem. Eles iam retirar o material da barragem reprocessar e por isso iria aumentar a capacidade de produção da mina mas a barragem sair de lá.

Demorou 4 anos para ser votado o processo de licenciamento disto. Se tivesse sido votado com 2-3 anos essa operação já estaria em andamento e essa barragem não tinha rompido.

Fonte:

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/01/25/ambientalistas-eram-contra-licenciamento-de-barragem-que-se-rompeu-em-brumadinho.ghtml

https://www.metrojornal.com.br/foco/2019/01/28/mariana-e-brumadinho-tragedia-que-se-repete.html

http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2014/09/rompimento-de-barreira-soterra-veiculos-na-cidade-de-itabirito.html

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