Sharon Tate, os Bastardos Inglórios e o menino Rhuan

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Sharon Tate, os Bastardos Inglórios e o menino Rhuan

Por: Juliana Gurgel


Não podemos alterar o passado. A arte, porém, fornece meios para reproduzir acontecimentos, recriá-los sob a perspectiva do autor e dar vida à histórias existentes apenas na imaginação. Vamos pensar no cinema.

Em 2009, o diretor e roteirista Quentin Tarantino, apresentou um novo final ao Führer da Alemanha Nazista, Adolf Hitler. No filme ‘Bastardos Inglórios’, Hitler e centenas de agentes nazistas são mortos no cinema, enquanto assistem ao filme ‘O Orgulho da Nação’. O cinema escolhido para sediar a première da obra de propaganda nazista é propriedade de Emmanuelle Mimieu, uma jovem judia sobrevivente ao massacre perpetrado à sua família, por um sádico coronel da SS. Mademoiselle Mimieu e um grupo de soldados judeus, sem se conhecerem, aproveitam a oportunidade da exibição para acabar com a guerra, matando a alta cúpula nazista.

A proposta de Tarantino é oferecer uma catarse diante de todo o conhecimento que temos a respeito das atrocidades realizadas por Hitler e seus seguidores na II Guerra Mundial. Os dois planos são bem-sucedidos, Mimieu põe fogo no cinema e os soldados judeus conseguem se infiltrar armados. Ao ver o cinema em chamas e os soldados judeus atirando indiscriminadamente na alta patente da SS, temos a permissão – por se tratar de um filme de ficção – de nos satisfazermos com tal desfecho. Afinal, quem afirmaria ser injusto tal fim, aos responsáveis pelo assassinato de seis milhões de judeus? Há quem, nestas cenas, acessem áreas mais nobres, como a justiça, a compaixão e o perdão. É possível meditar sobre tais sentimentos, inclusive considerando o arrependimento e a mortificação das almas envolvidas. Contudo, não é essa a proposta do filme e tampouco, o perfil do diretor. As imagens de raquíticos judeus jogados em imensas valas e os registros dos desumanos experimentos médicos de Josef Mengele, nos ‘autorizam’ a pensar que o destino dos nazistas naquela sala de cinema, foi consequência de suas próprias escolhas.

Dez anos depois de ‘Bastardos Inglórios’, agora em 2019, Tarantino propõe uma nova catarse através do filme ‘Era uma Vez em… Hollywood’. O acontecimento escolhido foi o assassinato da atriz Sharon Tate (26 anos), ocorrido em Los Angeles no ano de 1969. A atriz, casada com o proeminente diretor Roman Polanski, estava grávida de quase nove meses quando foi assassinada com 16 facadas, por seguidores do perturbado Charles Manson.

Este crime ganhou repercussão por seus explícitos aspectos macabros. Além de Tate, outras quatro pessoas morreram naquele 9 de agosto de 1969: os três amigos que estavam com ela na casa e o amigo do caseiro que estava saindo da residência. Polanski estava viajando a trabalho. Manson, líder e guru dos jovens, não estava presente durante os assassinatos, entretanto, deu como missão a seus fanáticos seguidores: ” destruir totalmente quem estiver lá, da maneira mais cruel que puderem”. Orientou como forma de potencializar a cena do crime deixar ‘algo ligado à bruxaria’, com isso, escreveram a palavra ‘pig’ com o sangue de Tate. Manson, definido pela promotoria como “o homem mais maligno e satânico que já caminhou na face da Terra”, foi condenado à morte em 1971, tendo a pena convertida à prisão perpétua. Morreu em 2017 aos 83 anos.

Os seguidores de Manson possuíam um padrão, eram jovens ricos e desestruturados, tinham em comum o frágil (ou ausente) vínculo familiar e o total relativismo moral em relação à vida; viviam juntos em uma comunidade permissiva onde nada era considerado errado e não havia consequência sob suas escolhas. Todos viviam descolados da realidade. Anos depois, um dos assassinos compartilhou o último pedido de Tate, ela queria que deixassem seu filho nascer, ela suplicou para dar à luz. Como sabemos, seu pedido não foi atendido.

A catarse deste acontecimento, representado em ‘Era uma Vez em… Hollywood’, acontece na noite em que Tate seria morta. No filme, ao invés de irem para a casa de Polanski e Tate (como aconteceu em 1969), os assassinos invadem a casa de seu vizinho, o ator Rick Dalton, enquanto seu amigo e dublê Cliff Booth estava presente. O restante deste grande ‘se imaginário’ de Stanislavski, acontece em cenas surreais e frenéticas ao estilo de Tarantino. A valente cachorra de Booth (ganhadora do Palm Dog em Cannes, de melhor atuação canina por este filme) protagoniza potentes demonstrações de fidelidade ao impedir a ação dos jovens hippies; Booth bate muito, bate tanto que os marginais ficam desfigurados; e o então, pouco combativo Dalton, se mostra valente e escolhe um apoteótico lança-chamas para arrefecer as intenções homicidas dos invasores. E mais uma vez, temos a permissão para achar isso merecido, pois, não fosse este desfecho fictício, ficaríamos com a realidade. A realidade seria assistirmos a uma grávida ser assassinada a facadas, enquanto implorava pela vida do filho e chamava por sua mãe.

A parte mais notável do desfecho que Tarantino propõe, é a insólita descrição que o pragmático dublê Cliff Booth faz da ‘turma’ de invasores aos policiais. Booth descreve os invasores, como “uns hippies” drogados, que invadiram a casa dizendo que eram o demônio, e ri dessa fala. Não houve glamorização dos assassinos, ao contrário, eles foram ridicularizados por Tarantino no personagem Booth. Foram apresentados como o que de fato eram: jovens desestruturados e submissos às ordens de um psicopata que julgavam fazer de um grandioso plano que ressignificaria suas medíocres vidas.

Tal descrição, nos remete à outras ações da mentalidade revolucionária, como o brutal caso do menino Rhuan. Um episódio que merecia um novo desfecho se o abominável acontecimento, em forma de roteiro, chegasse às mãos de Tarantino.

O caso é conhecido e apesar de não ter repercutido como deveria, vamos relembrá-lo, pois diante de várias histórias que mereciam um outro final (como abortos e assassinatos de crianças), esta é com certeza, uma delas.

Em maio deste ano, em Samambaia, região do DF, o menino Rhuan Maycon da Silva Castro foi assassinado pela própria mãe. O motivo do crime e os detalhes com que o menino foi morto, evidenciam o que acontece quando a perversão da vontade individualista se sobrepõe ao que é natural, ao que é moral e sagrado. Há neste crime, a tentativa de recriar uma pessoa segundo aquilo que sua mãe e sua companheira achavam ser o certo e melhor. Ela tentou fazer do seu filho-homem, uma menina. Diante da fala da mãe, de seus atos e de sua parceira, é possível constatar que elas o viam como a personificação do inimigo, e diante desta sua condição natural, nenhuma punição era o suficiente.

Rhuan fora sequestrado por sua mãe Rosana Auri aos quatro anos. Dos quatro anos até o dia de sua morte, ela o humilhou, negligenciou, torturou e como desfecho de tanto sofrimento, o assassinou. Rhuan foi decapitado quando ainda estava vivo, recebeu a primeira facada no peito enquanto dormia, e outras onze nas costas. Seus restos mortais passaram por um esquartejamento e uma churrasqueira, depois foram separados em uma mala e duas mochilas. Rhuan vivia em cárcere privado com outra menina, de oito anos, filha de Kacyla Priscyla, a namorada de sua mãe. A filha de Kacyla, também sequestrada e retirada da tutela paterna, passou cinco anos convivendo com Rhuan e o considerava um irmão. Quando o conselho tutelar a encontrou, ela em choque disse: “mãe matou o irmão”.

Há outros momentos em que o possível enredo de Tarantino poderia intervir e salvar Rhuan da tortura e assassinato. Um deles foi a ‘castração’ a que foi submetido. Um ano antes de assassinar o filho, Rosana realizou em Rhuan uma falectomia (ou penectomia). Isso significa que seu órgão genital foi removido. Ela o fez sem qualquer técnica, material adequado ou higiene. Este agressivo procedimento é indicado em casos de câncer de pênis ou por motivo de traumas e lesões graves, como uma mutilação. A cirurgia deve ser autorizada e feita por profissionais qualificados, em um hospital, e não por sua própria mãe e a namorada dela, na cozinha de casa, com instrumentos inadequados e motivos disfuncionais, como transformar à sua revelia, um menino de nove anos em uma menina. Após a falectomia, as duas mulheres costuraram o que sobrou do órgão masculino de Rhuan, visando assim, a “criação” de um órgão genital feminino.

São mais de 50 anos que separam os filmes de Tarantino, da realidade do Holocausto e do assassinato da grávida Sharon Tate. Leva-se um tempo para digerir tanta crueldade, contudo, imaginar um desfecho diferente pode ser tão necessário quanto à investigação da maquiavélica mentalidade revolucionária fomentadora de tais crimes.

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