Intervenção na Petrobras lembra PT e contradiz Bolsonaro, dizem analistas

Com o cancelamento do reajuste do diesel, o governo Bolsonaro ficou refém dos caminhoneiros e adotou práticas que negam sua proposta econômica liberal e lembram o governo petista de Dilma Rousseff. A avaliação é de analistas e representantes de setores produtivos diante da notícia de que o presidente Jair Bolsonaro pediu pessoalmente à direção da…

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Com o cancelamento do reajuste do diesel, o governo Bolsonaro ficou refém dos caminhoneiros e adotou práticas que negam sua proposta econômica liberal e lembram o governo petista de Dilma Rousseff. A avaliação é de analistas e representantes de setores produtivos diante da notícia de que o presidente Jair Bolsonaro pediu pessoalmente à direção da Petrobras para suspender o reajuste de 5,7% no diesel. As ações da petroleira fecharam o dia na Bolsa de Valores com queda superior a 8%.

O movimento foi visto por investidores e analistas como risco de o governo liberal de Bolsonaro retomar práticas muito criticadas dos anos de gestão da petista Dilma Rousseff, quando o governo interferiu na estatal para manter os preços dos combustíveis sob controle.

Anunciado por volta do meio-dia na quinta-feira, o aumento de 5,7% elevaria o preço do litro do diesel a R$ 2,266 na refinarias já a partir desta sexta. Seria o maior valor em seis meses, mas foi adiado por um comunicado emitido à noite pela Petrobras.

Medida lembra PT e contradiz propostas liberais

A atitude de Bolsonaro lembra o intervencionismo praticado pela ex-presidente Dilma Rousseff na Petrobras. Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, com Bolsonaro é ainda mais grave.

“O PT não tinha conflito. Aquela atitude era coerente com o que eles defendiam. Agora, no caso do Bolsonaro, há um claro conflito. Você tem um governo que se diz liberal aqui, conservador ali. Com um peso ideológico muito grande, do [ministro da economia, Paulo] Guedes. Só que o Bolsonaro é um cara corporativista. Esse sinal dado hoje apenas confirma minhas preocupações.”

Gonçalves, no entanto, diz não se surpreender. “Bolsonaro já deu outras trombadas. Nesses 100 dias de governo, vimos outros recuos. E podemos esperar que haverá muito mais recuos à frente.”

O analista da corretora Nécton, Alvaro Frasson, afirma que há diferenças importantes entre as razões que levaram o governo de Dilma a segurar os preços na Petrobras e a interferência feita agora por Bolsonaro, o que fortalece a possibilidade de ser apenas um movimento isolado.

“Com Dilma, o controle [na Petrobras] vinha de cima para baixo, era uma decisão do governo de manter os preços fixos na marra; no caso de Bolsonaro, foi uma decisão individual dele, e de baixo para cima, por causa da pressão de um setor [os caminhoneiros]“, afirmou.

Governo liberal refém de caminhoneiros

Analistas do mercado financeiro e agentes do setor de energia receberam a notícia com espanto e críticas. A grande dúvida que paira, agora, é saber se terá sido apenas uma intervenção pontual, conforme defende o governo, ou se pode se tornar algo recorrente.

“É impressionante, um governo que se diz tão forte, tão liberal, ficar refém dos caminhoneiros“, disse o diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), Adriano Pires. “Foi mais um retrocesso e é muito ruim para o país, porque deixa de atrair investimento; ruim para a Petrobras, porque perde dinheiro, e ruim para o governo, porque perde credibilidade.”

Intervenção prejudica mesmo se a intenção é boa

O problema, de acordo com Frasson, da Nécton, é o presidente acabar refém demais das pressões da sociedade e recorrer mais vezes ao seu poder de segurar o preço dos combustíveis para não perder mais da popularidade já abalada. “Aí é difícil imaginar que o [ministro da Economia] Paulo Guedes e a equipe econômica se manteriam no governo, e seria o caos.”

“Todo tipo de intervenção, às vezes com as melhores das intenções, prejudica; tira o funcionamento normal de um mercado como esse que funciona bem no mundo todo”, afirmou Leonardo Gadotti, presidente da Plural, associação que representa as distribuidoras de combustíveis.

Ação “pontual” e proteção aos caminhoneiros

Bolsonaro ligou diretamente para o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, para questionar o forte reajuste anunciado ontem. “Estou preocupado com o transporte de cargas no Brasil, com os caminhoneiros. Nós queremos um preço justo para o óleo diesel“, afirmou Bolsonaro ao comentar o assunto.

O vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou que se tratava de uma interferência “pontual” na estatal. “Tenho absoluta certeza de que ele [Bolsonaro] não vai praticar a mesma política da ex-presidente Dilma Rousseff no tocante à intervenção do preço do combustível e da energia”, afirmou.

Preço congelado contra inflação

Por diversos momentos em 2014 e 2015, no governo Dilma, a Petrobras manteve o preço dos combustíveis em suas refinarias congelados, mesmo com o barril do petróleo em alta no mercado internacional. A medida tentava aliviar a inflação alta no país, mas foi também uma das principais razões para os quatro anos de prejuízo da estatal entre 2014 e 2017.

Desde 2016, já após o afastamento da ex-presidente, a Petrobras adota uma política de preços pela qual os valores praticados em seus combustíveis devem seguir o mercado, pautados pela cotação do barril de petróleo do exterior e o câmbio.

Um comunicado recente protocolado pelo Petrobras na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, afirma aos investidores estrangeiros que não há garantias de que “nossa política de preços não vai mudar no futuro”.

(Com Reuters)

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