Danilo Gentili, o Grande Irmão e a Polícia do Pensamento

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- 1984 john hurt - Danilo Gentili, o Grande Irmão e a Polícia do Pensamento

O politicamente correto no Brasil está perto de realizar um sonho que foi almejado pelos regimes totalitários de Stalin e Hitler, mas só foi efetivamente implementado no romance distópico de George Orwell: 1984.

Nesta obra, a “Polícia do Pensamento” utiliza-se de psicologia e da denúncia constante para controlar, não só as ações e palavras de seus cidadãos, mas até mesmo o que pensam. A ideia central é punir de forma exemplar aos transgressores ao ponto deles perderem a capacidade de esboçar um único pensamento que fuja ao caráter padrão e homogêneo imposto pelo Estado.

Dois episódios recentes chamaram atenção:

O primeiro deles, ironicamente, desenrolou-se no Big Brother Brasil, programa batizado com outro conceito do romance de Orwell: o “Grande Irmão”.

- Paula - Danilo Gentili, o Grande Irmão e a Polícia do Pensamento

Paula, vencedora do programa, terá que comparecer na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) por ter dito que temia um outro participante por ele ter contato com “esse negócio de Oxum”.

Oxum é uma orixá, cultuada no candomblé e na umbanda, religiões de matriz africana e desconhecida para imensa maioria de cristãos do país (86,7% segundo o último censo do IBGE). Rapidamente, a participante ganhou dezenas de milhares de antagonistas nas redes sociais recebendo adjetivos que iam do “loira nojenta” ao “nazista asquerosa”.

Muitos desses perfis que patrulham as redes sociais e se indignam para defender Candomblé e Umbanda alegando intolerância religiosa, são os mesmos que se calam, e até mesmo zombam e riem quando assistem a Ministra Damares sendo ofendida em suas memórias íntimas e em sua fé em rede nacional ou quando católicos discursam contra o aborto.

- Gentili - Danilo Gentili, o Grande Irmão e a Polícia do Pensamento

O segundo caso foi ainda mais assustador: o humorista Danilo Gentili foi julgado e condenado por uma piada. Isso mesmo, uma piada!

Em um país onde estupradores confessos gozam de habeas corpus garantido pelo Supremo Tribunal Federal, um humorista é condenado por posicionar-se com sarcasmo e inteligência contra a hegemonia do politicamente correto.

O artigo 5º da Constituição Federal nunca esteve tão vulnerável. Sentimento, subjetividade e até mesmo o humor estão sendo atacados e cerceados por patrulheiros com apoio da máquina estatal. O brasileiro tão acostumado ao sarcasmo e ao deboche, desde o século XIX, através das charges de Angelo Agostini, vê-se privado até mesmo o direito de rir com escárnio da tragédia política desse país.

Entretanto, Gentili ainda não se rendeu, declarou no programa Os pingos nos is: “Ainda que eu vá preso, eu prefiro ir preso a me ajoelhar para a patrulha”. Tal como um cavaleiro, ele acena com o estandarte da liberdade mostrando que ainda é possível rir das nossas mazelas, sejam elas políticas ou individuais e exercer nossos direitos básicos.

- ban livraria2019 - Danilo Gentili, o Grande Irmão e a Polícia do Pensamento