Como o coronavírus afeta a economia global e brasileira

Além das vítimas fatais, a rápida disseminação do coronavírus pelo mundo tem deixando suas marcas também na economia global e brasileira. A China adotou medidas drásticas para diminuir o fluxo de pessoas nas ruas e em deslocamento pelo continente asiático. As bolsas de valores globais começaram a semana em queda. O preço do barril de…

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Além das vítimas fatais, a rápida disseminação do coronavírus pelo mundo tem deixando suas marcas também na economia global e brasileira. A China adotou medidas drásticas para diminuir o fluxo de pessoas nas ruas e em deslocamento pelo continente asiático. As bolsas de valores globais começaram a semana em queda. O preço do barril de petróleo caiu abaixo de US$ 60 pela primeira vez em quase três meses. O dólar se valorizou em relação ao real. E até as projeções para a Selic – a taxa básica de juros da economia brasileira – foram revistas.

Na segunda-feira (27), a Organização Mundial de Saúde (OMS) admitiu que errou na sua avaliação inicial sobre os efeitos do coronavírus. A organização passou a classificar o risco do novo vírus como “elevado”, e não mais “moderado”. A OMS disse também que a doença ainda não se trata de uma emergência de saúde global, mas que “pode vir a ser”. As últimas foram a gripe suína (H1N1), o vírus zika e o ebola.

Coronavírus reflete no mercado financeiro

A reclassificação do coronavíus e também o aumento do número de mortos e infectados dispararam o alarme da volatilidade global e aversão ao risco. O primeiro reflexo foi no mercado financeiro, e as bolsas mundo afora começar a semana em queda.

O Ibovespa fechou a segunda-feira (27) com uma queda de
3,29%, caindo para 114.481 pontos. Foi a maior baixa em um único dia desde
março de 2019. Entre as principais empresas listadas afetadas pela queda estão
as siderúrgicas Gerdau e CNS, que exportam para a China, e a Petrobras, que
depende do preço do barril de petróleo. A Vale também viu seu valor de mercado
encolher na segunda, o dia que marcou o pico do estresse até o momento.

Ainda no âmbito interno, o coronavírus afetou o dólar e a
taxa Selic – e ainda pode pressionar a inflação. A moeda americana teve alta de
0,60% e fechou a R$ 4,20. Foi o maior patamar desde 2 de dezembro do ano
passado. Já a taxa Selic, que antes o mercado achava que se manteria em 4,50%,
pode sofrer um novo corte de 0,25 ponto percentual.

“Os efeitos não se limitam às bolsas e às commodities, como
também afetando as projeções para a nossa Selic – haja vista que ontem o
mercado elevou para mais de 80% a chance de corte de 25 pontos-base no próximo
Copom, que acontecerá semana que vem”, afirma Thiago Salomão, analista da Rico
Investimentos, em relatório a investidores. O Banco Central decidirá na
primeira quarta-feira de fevereiro (5) se mantém ou muda a Selic.

Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo, pontua ainda que
essa aversão ao risco que passa a dominar o mercado acaba gerando inflação no
ativo livre de risco – hoje, são títulos do tesouro americano e o dólar. “Com o
dólar muito alto, você acaba ‘importando’ inflação. Muitos produtos que
consumimos são negociados em dólar, o que acaba encarecendo o produto final e
vai impactar a inflação no curto prazo”, analisa.

O índice Dow Jones, um dos principais do mundo, registrou
queda de 1,57% na segunda-feira. Ainda no mercado americano, outras duas
importantes Bolsas tiveram queda: a Nasdaq (1,89%) e o S&P 500 (1,575). Já
a Bolsa de Londres fechou o primeiro dia da semana em baixa de 2,29%. O preço
do barril de petróleo, feito com a cotação Brent, caiu 2,3%, atingindo US$
59,32 no mercado de Londres

Depois do estresse, um dia mais calmo

Por outro lado, nesta terça-feira, os mercados ficaram mais
“calmos”, diante das medidas tomadas pelo mundo, em especial a China, para
conter a disseminação do vírus. As bolsas no Brasil, Estados Unidos e Europa se
recuperaram e a maior parte fechou com tímidas altas – na Ásia a situação de
baixas nos mercados persiste.

A China – onde está o surto da doença – tem adotado medidas
drásticas para reduzir os efeitos na economia. Como a China é a segunda maior
economia do mundo, qualquer efeito nos dados econômicos do país afeta o mundo
inteiro.

Entre as ações para reduzir os efeitos na economia, a China
prolongou o feriado do Ano Novo chinês. O feriado terminaria inicialmente na
quinta-feira (31), mas agora vai até o dia 3 de fevereiro. Com isso, as Bolsas
de Xangai e Shenzen só voltarão a funcionar na terça-feira que vem.

Além de prolongar o feriado, Hong Kong, cidade autônoma
localizada no sudeste da China, fechou ferrovias e balsas e suspendeu ônibus de
turismo entre a cidade e o continente chinês. Os voos para a China continental
também foram reduzidos pela metade. A cidade também não está mais emitindo
vistos individuais. Também há restrições de viagens entre as províncias Wuhan e
Hubei, o epicentro do surto.

Segundo o Centro de Controle de Doenças da China, é preciso
encontrar um equilíbrio entre controlar a propagação da doença e limitar os
impactos econômicos do surto do vírus.

Coronavírus: o que esperar daqui para frente

Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, diz que é
difícil projetar como o surto pode afetar a economia daqui para frente, em
especial no longo prazo. “Não existe uma ‘regra’ para como o mercado reagirá às
epidemias e o motivo é simples: existem outras diversas variáveis que
afetarão”, escreveu em relatório a investidores. Mas completou dizendo que elas
“certamente afetarão o mercado no curto prazo”.

Economista da corretora Nova Futura, Pedro Paulo Silveira
afirma que, caso o surto se espalhe ainda mais pelo mundo, a economia chinesa
deve ter uma desaceleração, afetando a economia global e as exportações
brasileiras. A China é o principal destino de exportação das empresas
brasileiras.

“Supondo que aumente a amplitude da contaminação,
levando à redução dos fluxos de pessoas e mercadorias da China com o resto do
mundo, a economia chinesa teria uma desaceleração em sua taxa de crescimento.
Se ocorrer, isso impactaria fortemente as exportações do Brasil, naquilo que o
país tem de mais dinâmico hoje, que são as commodities. A economia brasileira
sofreria bastante. Vai exportar para quem? Então teria menos atividade
econômica, e o PIB brasileiro cresceria menos”, afirmou em entrevista à Gazeta
do Povo.

Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo, lembra que a China
é a principal parceira comercial do Brasil hoje e qualquer diminuição do
consumo local chinês vai impactar no Brasil. Qualquer coisa que o país já vende
ou possa vir a vender – de commodities, passando por tecnologia e até mesmo o
petróleo – vai ser impactada porque haverá diminuição do fluxo dessas transações.

“A nossa economia real é impactada, porque as empresas daqui
que exportam para a China terão um mercado menor para exportar, e essas
empresas tendem a não crescer. Se as empresas não crescem, o Brasil não cresce,
não gera renda, emprego”, avalia.

Além das empresas ligadas ao setor de commodities, empresas de aviação, serviços de viagens e itens de luxo estão entre os setores que podem ser impactados negativamente, caso o surto se prolongue, afirma o analista Thiago Salomão.

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