“Canhão de Salmão” encanta internet, mas para que ele serve?

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Por que o salmão atravessou o lago? Porque encontrou um tubo pneumático que o levou para o outro lado – antes que ele desaparecesse. Não tão engraçado quanto a piada da galinha, mas definitivamente mais importante.


Se você não viu, vai querer ver. Nos últimos dias, um vídeo sobre canhões de salmões viralizou no Twitter. Tão louca quanto pode parecer ser, a gravação mostra um cano que consegue fazer salmões atravessarem, em segundos, distâncias que levariam dias para serem atingidas na base do nado. Praticamente o Hyperloop que os amigos do Nemo precisavam. O resultado é um tobogã que nem o mais pretensioso dos parques aquáticos conseguiu imaginar, só que para peixes. Você pode conferir abaixo:

This system helps native fish pass over dams in seconds rather than day pic.twitter.com/aAmhHArjPg

– Dr. Kash Sirinanda (@kashthefuturist) 8 de agosto de 2019

Aí aparece a única pergunta possível: pra que? E a resposta, na verdade, pode te surpreender. É para salvar esses animais.

Alguns tipos de salmão de já foram extintos, outros estão ameaçados de extinção. É o tipo de notícia que um fã de comida japonesa não quer ler, mas é a realidade (apesar de que, sim, há linhagens do animal que estão fora de qualquer perigo). A culpa disso é, adivinha só? Do homem. Parte por conta da caça, mas principalmente porque a gente altera muito o ambiente.

Para a construção de hidrelétricas e represas, por exemplo, cursos de rios são alterados, descidas se tornam planas e temperaturas mudam. Isso acaba com o senso de localização dos animais que ali vivem e, no norte do planeta, os salmões são diretamente afetados. Os animais não sabem mais para onde ir. Seu ciclo de migração fica completamente atrapalhado. Muitos deixam de se reproduzir, outros viram alvo fácil para os predadores e, sobretudo, morrem sem procriar corretamente.

Como o problema é velho, algumas soluções já até apareceram antes do canhão de salmões. Para você ter uma ideia, foram construídas no século 19 as primeiras “escadas de peixes”. Na prática, eram de escadarias cobertas com água que servem para simular cachoeiras, para os animais se reproduzirem com um pouco mais de normalidade. Só tem um problema: elas não funcionam. Um estudo de 2013 descobriu que só 3% dos peixes analisados conseguiram atravessar os percursos das geringonças. É aí que entra o canhão.

O vídeo que viralizou mostra o projeto fruto de uma empresa chamada Whooshh, que desenvolve os tubos. Seu objetivo é fazer com que os salmões possam ultrapassar barreiras criadas pelo homem, para que os peixes consigam, enfim, migrar e se reproduzir do jeitinho que a natureza pede.

As imagens que viralizaram, no entanto mostram uma versão um pouco mais antiga do projeto. Na mais atual, a principal diferença é que nenhum humano encosta nos peixes – e isso faz toda a diferença.

Na atual versão do projeto, os peixes são atraídos naturalmente para uma pequena cachoeira artificial, só que logo no topo há um buraco, cujos peixes também tentam, instintivamente, entrar, e logo que conseguem, boom. São transportados até o outro lado do rio.

O tubo transporta os animais usando apenas um pouco de pressão. Como o material do objeto é maleável, o cano consegue se moldar em torno do corpo do peixe. Logo o bichinho é solto na outra parte do lago e segue sua vida como se nada tivesse acontecido.

A empresa divulgou um estudo mostrando que 97% dos animais não sofrem nenhum tipo de dano por atravessarem o canhão. Eles não se machucam e nem mesmo aumentam seus níveis de estresse – como não encontram nenhum humano, os peixes encaram o toboágua basicamente como uma cachoeira gigantesca e prática.

Há problemas? Sem dúvida. Além dos 3% que se machucam de alguma forma durante o percurso, os estudos mostram, por exemplo, que depois que os animais entram na cachoeira artificial eles não conseguiam mais sair – o que acabava forçando os animais que desistiam no meio do caminho a se jogarem tubo adentro.

Os resultados, no entanto, têm sido mais bem do que mal vistos. O centro de estudos marinhos da Universidade de Oregon, por exemplo, analisou o produto e o aprovou “É uma tecnologia muito interessante, que pode ajudar os peixes a se movimentarem, e ter inúmeras aplicações”, afirmou Gil Sylvia, diretor do centro, em um vídeo de divulgação do “canhão”.

No mais, um alerta para os humanos: a gente não precisa nem ficar com inveja. Talvez um dia nós mesmos possamos ser transportados dessa maneira. Questionado no Reddit se seria possível usar a mesma tecnologia para transportar gente, Vince Bryan, CEO da Whooshh respondeu: “Teoricamente, sim, poderíamos colocar um humano em um tubo grande, já que nosso sistema se baseia no princípio da diferença de pressão. É prático? Nem um pouco. Possível? Totalmente”, mas completou passando a bola para outro inventor, “O transporte de humanos por tubos é algo que estamos deixando para Elon Musk”. Caiu na rede, não necessariamente é peixe.

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