Brasil nem tem 5G, mas a Qualcomm já está pensando no 6G

A prometida quinta geração da telefonia móvel, a 5G, deve chegar sua trajetória no Brasil a partir no ano que vem, quando a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) deverá agendar o início do leilão de espectros para as operadoras. Mas enquanto isso, pessoas como Cristiano Amon, presidente-executivo da Qualcomm, já sonha além: com a geração…

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A prometida quinta geração da telefonia móvel, a 5G, deve chegar sua trajetória no Brasil a partir no ano que vem, quando a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) deverá agendar o início do leilão de espectros para as operadoras. Mas enquanto isso, pessoas como Cristiano Amon, presidente-executivo da Qualcomm, já sonha além: com a geração seguinte, a 6G. Como assim?

“No momento em que lançamos o 5G, em 2019, já temos um time trabalhando na próxima geração de conexão móvel”, disse Amon ao Tilt, na ocasião ao receber o título de Doutor Honoris Causa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde se formou engenheiro em 1992.

A norte-americana Qualcomm é uma das maiores fabricantes de semicondutores do mundo, e uma referência em processadores para celulares. Alguns desses chips já estão saindo com modems 5G, então a empresa já tem na transição do 4G para a 5G uma das suas maiores apostas. Uma expectativa da Qualcomm é que fabricantes globais de smartphones vendam 450 milhões de aparelhos 5G em 2021 e outros 750 milhões em 2022.

Apesar de estar disponível para 96% da população, segundo dados da consultoria Teleco, a internet 4G do Brasil até hoje está um pouco aquém da observada em outros países. Mas como muitos outros nomes do mercado de telefonia, Amon é otimista com o 5G e vislumbra muitos usos para ele. Do 6G ele fala pouco; apenas diz que será mais rápida do que 5G, que por si só já será dez a 20 vezes mais rápida que a 4G.

Tilt – Você entrou na Qualcomm antes do 2G, e agora estamos falando em 5G. Como o mundo da conexão mudou nesse meio tempo?

Amon – O telefone analógico funcionava como um walkie-talkie. Quando surgiu o portátil, não tinha para todo mundo. Entramos [a Qualcomm] no 2G com o objetivo de dar a todo ser humano uma linha. Foi com o CDMA que entramos definitivamente no mapa. Criamos uma tecnologia de transmissão pelo ar para ter um ganho de capacidade de até dez vezes, e foi um sucesso, inclusive, no Brasil com o [celular] pré-pago.

Quando começamos a trabalhar com o 3G, o desafio era conectar o celular à internet. Parece que foi ontem, mas foi quando começou as mensagens no celular. Tinha Blackberry, a Microsoft com o email no celular. As pessoas passaram a tirar foto.

No 4G, nos tínhamos que resolver como levar banda larga para o celular. Tivemos que desenvolver toda uma linha de processadores para um dispositivo que funcionaria o dia inteiro com bateria. Foi aí que surgiu o smartphone. Nós sempre estamos trabalhando antes no que vai vir depois.

Agora, com o 5G, temos um problema para resolver: em uma sociedade em que todos estão conectados, os dados devem ser ilimitados e a velocidade deve ser suficiente para que tudo fique na nuvem. O 5G deve ser como a eletricidade.

Hoje você não discute para que serve a eletricidade. Você assume no que ela está lá. O desafio não é só viver em uma sociedade em que todos serão conectados, mas que também conecte tudo em volta. Quando a agente fala em celular, são bilhões de pessoas, mas quando a gente fala de internet de coisas, são carros, eletrônicos. Falamos da ordem de grandeza de centenas de milhões.

Quando o 5G estiver montado, as pessoas vão esquecer como é não estar conectado à internet. O que vai parecer ser incomum é estar fora da internet. No momento em que lançamos o 5G, em 2019, já temos um time trabalhando na próxima geração de conexão móvel.

Tilt – O que já se pode dizer do 6G?

Amon – A única coisa que a gente sabe é que vai se chamar 6G. O início das pesquisas é justamente para ter um ganho de performance. E hoje já estamos pesquisando ir acima da onda milimétrica. Tendo avançado com a capacidade de processamento, já estamos pensando em outros usos.

Mesmo no 5G já é possível pensar que você vai poder usar um óculos — um daqueles normais mesmo e nem chega a ser de VR [realidade virtual] ou AR [realidade aumentada] – que vai usar câmeras para, em qualquer lugar que você for, reconhecer as pessoas por meio de inteligência artificial e trazer informações das redes sociais.

Tilt – Você pinta um cenário em que a adoção do 5G ocorrerá sem percalços, mas não é assim. A guerra comercial pode atrapalhar na adoção do 5G?

Amon – Eu acho que não. O 5G é maior que qualquer companhia. Mesmo com dificuldade. Permita-me separar essa questão em duas. Existe a guerra comercial, de abertura comercial, entre EUA e China, e existe a questão da Huawei. Mas, mesmo assim, você vê a questão do 5G avançando. Até mesmo na China. Por lá, já lançaram o 5G. Tem 10 milhões de usuários. E prometem ter 1 milhão de estações rádio-base de 5G até o fim de 2020, porque têm essa visão de que é infraestrutura básica. A Europa, que também tem Huawei como fornecedora de redes, está avançando. Nós não vimos nenhum sinal de desaceleração por causa dessa disputa.

Tilt – Aqui no Brasil, o leilão do 5G, que iria ocorrer no começo do ano que vem, só deve rolar no fim de 2020. O atraso do leilão brasileiro pode fazer o país ficar para trás na corrida pela quinta geração?

Amon – Infelizmente eu tenho que dar a seguinte resposta. Devido ao atraso que você viu na adoção do 4G na Europa, que só implantou a tecnologia anos depois dos EUA, hoje você vê a China montando infraestrutura.
Por ter implantado o 4G na frente, os EUA foram palco do surgimento de empresas como Facebook, Instagram, Uber, uma série de empresas que só surgiram em função dessa infraestrutura. Elas não surgiram na Europa.

Hoje, entende-se que se o 5G será mais abrangente, não vai afetar apenas a tecnologia móvel. Ninguém vai ganhar se ficar para trás. Não tem nada de positivo para o Brasil ou outro país se atrasar a adoção do 5G.

Mas tem uma possibilidade positiva. Existe uma coisa diferente no 5G, que não tinha nas outras gerações de telefonia. Será possível criar redes privadas, que irão coexistir com redes públicas. Empresas poderão construir suas redes.

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Cristiano Amon, presidente-executivo da Qualcomm

Imagem: Divulgação/Qualcomm

Tilt – Ao ganhar esse título Honoris Causa, você se juntará a figuras como Oscar Niemeyer, Cesare Lattes (Nobel de física de 1950 e que dá nome ao sistema Lattes), Ernesto Sábato, Mario Quintana. Como é estar ao lado dessas figuras?

Amon – Primeiro, eu não esperava. Foi uma grata surpresa. Depois, foi que eu vim realmente a saber quem recebeu esse título. É um privilégio estar ao lado dessas pessoas. Quando decidi ser engenheiro, quando estava fazendo vestibular ou estava estudando, eu nunca imaginei que isso um dia poderia acontecer.

Existem muitos executivos que fazem curso de graduação de engenharia e, ao ir para os EUA, fazem uma pós-graduação, seja em Stanford, seja no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). A única universidade que eu frequentei foi a Unicamp. Mesmo estando nos EUA, não achei que eu precisasse fazer um curso de engenharia de outro lugar, o que demonstra a qualidade do ensino que eu recebi.

Tilt – Você é um dos poucos empresários da lista e talvez o único de uma empresa de tecnologia. O que você acha que isso representa isso?

Amon – Da mesma forma que a pesquisa aplicada e a descoberta científica causaram impacto na humanidade, a tecnologia vem mudando o mundo. Eu tive o privilégio de participar da telefonia móvel e agora estou ocupado com a transição para o 5G. Muito do que a gente faz é baseada no smartphone, que virou o maior plataforma da humanidade. Poder participar do desenvolvimento de uma tecnologia que realmente permitisse que isso acontecesse pesou na escolha [do título].

Tilt – Esse título chega como a cereja no bolo de um ano bastante movimentado. Como foi este ano para você e a Qualcomm?

Amon – Foi um ano incrível. A empresa passou o ano de 2018 muito difícil. A gente tinha uma disputa de licença em aberto com a Apple, tinha sobrevivido a uma tentativa hostil de aquisição [a empresa quase foi adquirida pela Broadcom, se Donald Trump não tivesse impedido o negócio], mas uma das coisas que eu me empenhei foi em não fazer o mais fácil, mas fazer o mais certo, ainda que fosse o caminho difícil.

Junto com o conselho, decidimos no finalzinho de 2017 e comecinho de 2018 que iríamos acelerar o 5G em um ano. Então 2019 foi um processo bastante ágil, em que vimos em todo mundo, na Europa, na China, na Coreia, no Japão, as principais economias construindo as redes de 5G. O 5G é diferente porque não muda só a tecnologia móvel, mas o setor automotivo, o de saúde, o de manufatura. E isso fez a Qualcomm voltar a uma fase de crescimento.

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