A vingança de Aristóteles contra o Governo Bolsonaro

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O Governo Bolsonaro caminha a passos largos para um nova crise energética e consequentemente inflação de preços da energia elétrica e possivelmente paralisação da economia.


Por Guilherme G. Villani

Em artigo anterior sobre o setor elétrico, eu já havia alertado ao governo eleito sobre os desafios do setor elétrico no Brasil. Os alertas são meus e do Instituto Ilumina, uma organização independente séria que estuda o setor elétrico brasileiro.

Passado três meses tenho a forte sensação de que os ministros Bento Albuquerque e Paulo Guedes e o próprio presidente Jair Bolsonaro não tem a mínima idéia do tamanho do barril de pólvora em que estão sentados e que, caso explodir, não haverá água para apagar o incêndio.

Os problemas são de curto, médio e longo prazo.

O título do artigo remete ao problema de ordem estrutural no qual nos metemos no início do governo FHC.

Trocamos um modelo regulatório pautado pela premissa da prudência – reserva de energia em grandes reservatórios onde os anos de bonança compensavam os anos de escassez  – para um modelo mercantil matemático-contábil que sempre nos leva ao esgotamento das reservas, aumento de custos e risco sistêmico.

Parafraseando Olavo de Carvalho em sua brilhante aula “A vingança de Aristóteles”:

O atual modelo regulatório do setor elétrico desinteressou-se da “natureza” dos corpos e concentrou-se no estudo das suas propriedades mensuráveis. Daí resultou a concepção mecanicista, na qual todos os processos naturais se reduziam, em última análise, a movimentos locais e obedeciam a proporções matemáticas universalmente válidas.

Para criar o “sinal de preço” o atual modelo regulatório do Brasil matematizou a natureza – chuvas e vazão dos rios – com um grau de subjetividade assombroso.

Para se ter uma idéia do grau de subjetividade, inicialmente o preço máximo da energia no mercado de curto prazo foi projetado com base em uma conta matemática em que se calcula o custo para a economia caso faltar energia. Quanta presunção!

O custo é inimaginável/incalculável e portanto sequer poderíamos aventar a hipótese de faltar energia em nível nacional, como aconteceu em 2001.

O resultado é um modelo de gestão de riscos totalmente omisso a aspectos da natureza que talvez nem mesmo São Pedro conseguiria controlar.

O modelo é tão bizarro que a usina hidroelétrica vende energia com base em um cálculo matemático baseado na potência da mesma multiplicado pela vazão histórica do rio.

Acontece que a natureza prega algumas peças, como no caso do Rio São Francisco que há 20 anos tem uma vazão muito inferior ao histórico no qual se baseou a quantidade de energia que as usinas vendem. Ou seja, elas vendem uma energia que não geram!!

Bloqueios Atmosféricos, um fenômeno típico de inverno, tem acontecido com recorrência nos verões brasileiros. Ocorreu pela primeira vez no verão 2013/2014.

O que os matemáticos disseram?: A chance de ocorrer novamente é 1 em 1 milhão.

O que um especialista de risco diria?: Após ocorrer pela primeira vez, a probabilidade do evento ocorrer novamente aumentou substancialmente.

Pois é, tivemos um novo bloqueio atmosférico no verão 2014/2015.

“O mundo, porém, dá voltas. Aristóteles não levava a sério o método matemático porque não acreditava que nada na natureza se conformasse exatamente a qualquer medição ou regularidade inflexível. Para ele, o método certo para o estudo da natureza era a dialética, que não leva a conclusões lógicas perfeitas e acabadas, mas somente a probabilidades razoáveis.” – Olavo de Carvalho, A vingança de Aristóteles

O efeito de fenômenos climáticos imprevisíveis no setor elétrico matematizado é duplamente ruim.

De um lado reduz a oferta de combustível (chuvas) no momento em que mais se deveria recompor reservatórios, e por outro lado a demanda de energia elétrica aumenta substancialmente devido ao uso de ar condicionado. Nas últimas três semanas, o Brasil bateu cinco recordes de consumo de energia por conta das altas temperaturas. 

Quem defende o atual modelo justificaria que o sistema brasileiro é interligado, pode usar a energia do norte para abastecer o sul e vice versa. Não é bem assim.

O Sul e o Norte não possuem grandes reservatórios, o Nordeste possui, mas já não dá mais para contar com ele. Ali a prioridade é o abastecimento humano e animal.

A região do Sudeste em que fica a “Caixa D’Agua” do sistema é concentrada. Concentração de Risco = Aumento do Risco Sistêmico.

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Vamos ver como está o nível da energia/água armazenada:

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Se a indústria voltar a crescer junto com a economia aonde vamos parar? No fundo do poço, literalmente falando?

A provável solução vai ser ligar todas as térmicas caras a óleo contratadas ao longo dos últimos 20 anos. A mais emblemática delas foi a TermoLuma do empresário Eike Batista que construiu a usina a toque de caixa quando o governo FHC entrou em pânico e depois vendeu a mesma para a Petrobras por US$ 137 milhões. 

Já somos o 5º país do mundo com a energia mais cara, até o final do governo Bolsonaro seremos os primeiros se nada for feito.

Se o cenário de curto prazo é péssimo, o cenário de médio prazo é pior ainda.

Estamos perdendo capacidade de produção em usinas hidroelétricas e térmicas por falta de manutenção e lama. A UHE Candonga já parou desde a tragédia de Mariana e a UHE Retiro Baixo será a próxima a parar por conta de Brumadinho.

As linhas de transmissão de Belo Monte possuem atrasos, em especial o Pré-Linhão que ligaria a energia da usina até Salvador, passando por áreas no oeste da Bahia relevantes para projetos de energia eólica. A empresa espanhola Abengoa quebrou, a linha teve que ser relicitada. Atraso monumental.

Em 2022, as cláusulas financeiras da Binacional Itaipú serão renegociadas. A Usina é responsável por 10 a 12% da energia consumida no Brasil.

O Paraguai deve fazer jogo-duro e encarecer o custo da energia mas o pior cenário é se ele quiser usar essa energia para alavancar a sua indústria e desenvolvimento. Meia Usina de Itaipú representa uma Belo Monte e meia!!

Isso sem contar que Itaipú está próxima de grandes mercados consumidores PR e SP, ou seja, em caso de precisar de energia nova ainda teremos o ônus da transmissão.

Por último, mas não menos importante.

AINDA NEGLIGENCIAMOS O POTENCIAL DA ENERGIA SOLAR DISTRIBUÍDA, aquela que fica nos telhados dos estabelecimentos e residências.

O jogo de interesses das empresas do Setor Elétrico é impressionante para impedir o avanço dessa fonte de energia que é inesgotável, barata, limpa e que o Brasil é o MAIOR BENEFICIÁRIO DO MUNDO.

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Qualquer brasileiro poderia ajudar a expandir a geração e “estabilizar” o consumo durante o dia sem recorrer aos bilionários empréstimos do BNDES. Hoje a melhor tecnologia de geração solar com micro-inversores ainda engatinha por aqui. Nos EUA com cerca de R$ 2 mil já é possível iniciar a produção suficiente para uma residência de baixo consumo.

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Antes do Sr. Paulo Guedes chamar as estatais de filhos drogados, ele deveria olhar para o umbigo do setor privado que em conjunto com políticos corruptos saqueiam o Brasil, impedem o desenvolvimento do país com seus lobbies sujos e ainda mandam a conta da incompetência e roubalheira via conta de luz.

Se ele quiser dar alguma contribuição “liberal” para o setor, que abaixe os exorbitantes 60% de imposto de importação nos equipamentos solares (placas e inversores), acabe com a patifaria do INMETRO que seleciona quem pode ou não vender no Brasil e reduza a burocracia regulatória.

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Brilhantes engenheiros e “barrageiros” (operários especialistas em construir hidroelétricas) empunharam a bandeira da Eletrobrás e construíram um monumental sistema de produção, transmissão e distribuição de energia. Colocado sobre um mapa da Europa ligaria Lisboa a Moscou.

Que funcionava bem e com segurança energética até o FHC, sob efeito das drogas ilícitas de um falso liberalismo e da física matematizante, transformar o setor elétrico numa putaria privada onde empresas abastecidas de dinheiro subsidiado do BNDES constroem e operam de qualquer jeito e mandam a conta para a sociedade.

A física Aristotélica já se vingou de FHC na Crise do Apagão em 2001, já se vingou do PT na explosão tarifária (60% de aumento na conta de luz) em 2015.

Vai poupar o governo Bolsonaro?

A falta de perspectiva positiva para o setor cansa. Fiquei triste em ler o artigo “Ano novo, vida velha” do Ronaldo Bicalho, Pesquisador da UFRJ,  que encerra o mesmo com um lamento.

“É dura a vida de quem tenta analisar o setor elétrico brasileiro com o mínimo de senso e esperança nestes tempos em que os especialistas setoriais falam com poses de Guardiolas e conteúdos de Péricles Chamuscas.”

Fontes:

A vingança de Aristóteles

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/01/renegociacao-de-itaipu-pode-elevar-conta-de-luz.shtml

https://www.climatempo.com.br/noticias/285020/que-bloqueio-e-esse/

https://www.ambienteenergia.com.br/index.php/2019/01/renegociacao-contrato-de-itaipu-pode-elevar-conta-de-luz/35595

Estatais são como ‘filhos que fugiram e hoje são drogados’, diz Guedes – Folha de São Paulo

Setor elétrico: ano novo, vida velha – Artigo

potencial solar brasil

Consumo de energia elétrica deve crescer 7% em fevereiro

https://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u94738.shtml

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