A inflação e as turbulências econômicas

A ciência econômica tem como objeto de estudo o sistema de produção, distribuição, circulação, acumulação, investimento e consumo, sistema esse que recebe o nome de “economia”. Como ciência social, a Economia é estruturada em três partes: a filosofia econômica, que trata das ideias de organização social para operação do sistema; a teoria econômica, que explica…

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A ciência econômica tem como objeto
de estudo o sistema de produção, distribuição, circulação, acumulação,
investimento e consumo, sistema esse que recebe o nome de “economia”. Como
ciência social, a Economia é estruturada em três partes: a filosofia econômica,
que trata das ideias de organização social para operação do sistema; a teoria
econômica, que explica o funcionamento do sistema e formula seus princípios e a
lógica de todo o processo; e a política econômica, que é a intervenção no
funcionamento do sistema, feita pelas leis, normas e ações do governo.

Muitas das leis econômicas e muito do conhecimento sobre como esse sistema funciona, sua lógica e a relação entre causas e efeitos vêm da observação dos fatos reais ao longo da história. Mas justamente por se tratar de uma ciência social, por não se tratar de ciência exata e por se parecer com uma máquina um tanto caótica, as teorias, as leis econômicas, as ideias e a concepção de sociedade se prestam a discussões, divergências e falta de consenso. Já é dado como certo, praticamente em consenso, que uma das mais graves doenças do sistema econômico é a inflação, definida como “aumento generalizado e contínuo de preços”. Por essa definição somente há um processo inflacionário quando todos, ou quase todos, os preços de bens e serviços aumentam, e de forma contínua.

Algo que ajuda a reduzir o susto com o IPCA de dezembro é o fato de os aumentos terem se concentrado em alguns poucos itens

A inflação é doença que pode
ser combatida e controlada, mas não extirpada totalmente. Em geral, nos países
desenvolvidos e de economia relativamente estável, a inflação aceitável gira em
torno dos 3% ao ano. Nos últimos 60 anos, foi somente após 1994, com o Plano
Real, que o Brasil conheceu o significado benéfico de uma inflação
relativamente baixa por períodos longos, após ter amargado os efeitos dessa
doença e da desordem que ela provoca em todo o sistema econômico e social. Para
2019, o centro da meta de inflação fixada pelo Banco Central (BC) foi de 4,25%,
com um ponto e meio de tolerância para mais e para menos; a estatística oficial,
o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mede a elevação de preços dos
bens e serviços consumidos por famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos.

Até há poucos meses estimava-se que o ano fecharia com uma taxa inferir aos 4,25% do centro da meta, e houve certa surpresa quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que 2019 fechou com inflação de 4,31%. Não é nenhuma tragédia nem constitui um grave problema, mas a surpresa vinha das expectativas para o IPCA ao longo do ano passado e, sobretudo, pelo resultado da inflação no mês de dezembro, que foi de 1,15% contra 0,51% de novembro, além de ter sido a maior taxa para um mês de dezembro desde 2002, quando o IPCA ficou em 2,1%. A inflação corrói o poder de compra dos salários, diminui o valor dos ativos financeiros em termos reais, desorganiza o sistema de preços, reduz o poder de previsão e orçamento, além de outros efeitos deletérios sobre o funcionamento da economia, razões pelas quais a inflação deve ser combatida e controlada o tempo todo.

A inflação de 4,31% de 2019 apresentou alguns aspectos peculiares. Primeiro, houve aumento expressivo nos preços da carne, principalmente em decorrência do aumento da importações feitas pela China causadas pelas perdas da produção interna após um surto de gripe suína africana ter atingido o rebanho de suínos chineses. Como a carne tem importante peso na composição do consumo das pessoas, os aumentos de preços puxaram a inflação brasileira para cima. Em segundo lugar, o mercado internacional de petróleo andou passando por turbulências, o Brasil fabricou suas próprias crises – inclusive com nova ameaça de greve dos caminhoneiros – e o aumento dos preços da gasolina nas refinarias ajudou a elevar a inflação do ano, também pelo peso que os combustíveis derivados do petróleo têm no cálculo do IPCA.

Um terceiro fator que ajudou a pressionar a inflação foram os aumentos de custos de importação em reais derivados da elevação da taxa de câmbio – caso do trigo, que tem 50% de seu consumo nacional abastecido por importações. A elevação do preço do dólar afeta toda a pauta de importações e, assim, exerce pressão altista sobre os preços internos. Nesse cenário, algo que ajuda a reduzir o susto com o IPCA de dezembro é o que os economistas chamam de “índice de dispersão”. Quando os aumentos de preços pegam uma grande quantidade de produtos diferentes, significa que a inflação se dispersou por toda a cadeia produtiva e pode representar um processo generalizado. Porém, quando o índice geral de preços sobe em decorrência de aumentos fortes em uns poucos itens, diz-se que a inflação está “focada” e não representa uma doença geral do organismo econômico nacional. A menos que haja turbulências adicionais na economia mundial, não há razões objetivas para crer que em 2020 a inflação supere a meta de 4% prevista pelo Banco Central.

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