A Formação Do Médico

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“Para entender um só é preciso ter lido muitos livros.” (Jorge Luís Borges)


O início de qualquer profissional começa necessariamente pela formação do imaginário, se desenvolve a partir da estimulação da criatividade e da apresentação do universo tanto em conjunto, como também na singularidade dos entes e suas relações.

As coisas e suas peculiaridades, as ciências, a história, as complexidades e tensões inerentes à própria existência, após apresentadas ao indivíduo passarão a fazer parte dele e no momento em que a razão emergir, ele terá substrato mental para produzir as ferramentas cognitivas necessárias para o aprendizado técnico e posterior atuação profissional.

Nos clássicos gregos encontramos a história de Morfeu e sua caverna repleta de papoulas, só nesta alegoria já estão embutidas a origem e alguns efeitos de uma das classes farmacológicas mais importantes para prática diária (opióides). O fígado com seu enorme potencial de regeneração estava no castigo de Prometeu, já o herói Aquiles nomeou um importante tendão e a coxa de Zeus foi a primeira unidade de terapia intensiva neonatal, foi lá que o prematuro bebê Dionísio terminou seu desenvolvimento.

Em umas das histórias contidas no Decamerão, uma moça acamada, tendo o pulso examinado por um médico apresentou taquicardia, tremores e profusa sudorese, foram desencadeados pela entrada de determinado rapaz no quarto da moribunda, isto é tecnicamente a apresentação de uma descarga adrenérgica efetuada pelo o sistema nervoso autonômico em resposta ao estresse, o sagaz doutor diagnosticou então que ela estava enferma por paixão. Muitas pessoas consideravam essas histórias como uma extravagância imaginativa dos autores românticos, porém a Miocardiopatia de Takotsubo justifica aquelas descrições, hoje conhecemos mecanismos fisiopatológicos que explicam como o drama pode causar cardiopatia e o óbito.

O marido da Madame Bovary, um médico tolo, com o objetivo de suprir as futilidades da esposa, aceitou realizar um procedimento para corrigir um pé torto congênito em um paciente adulto e totalmente adaptado a sua deformidade, o resultado foi terrível. Essa história exemplifica algo da ética, o ato médico jamais deve ser motivado por uma demanda individual do profissional e o risco de efetuá-lo não deve ser maior que o benefício.

As histórias de Edgar Allan Poe são uma formidável fonte de recursos, ele descreve doenças estranhas, transtorno de personalidade, manias, psicoses, alucinações, uso de substâncias psicotrópicas, estado post-mortem e até eletrofisiologia humana. Os romances policiais são fantásticos, Sir Arthur Conan Doyle (que era médico) forjou seu personagem através da marcante impressão que o doutor Joseph Bell lhe causou (era formidável, emprestou seu nome para a paralisia facial ou de Bell). As histórias do nosso querido Sherlock descrevem o conhecimento por presença que em parte é intuitivo, narram a análise minuciosa dos fatos e suas correlações, citam as informações gerais de cada particularidade que compunham aquele caso, muitas vezes mencionando as probabilidades de ocorrência daqueles eventos. Após essas etapas presenciamos o raciocínio pela análise dos dados e posterior montagem e conclusão, saibam que estes são exatamente os passos necessários para realizar os diagnósticos na prática médica.

Existem detalhes úteis em praticamente toda literatura, Agatha Christie descreve de forma primorosa uma paciente idosa em estado terminal por câncer, intoxicada por morfina (voz arrastada, pálida e pupilas puntiformes), no livro a Ilha Misteriosa, Júlio Verne faz um excelente relato da malária e ainda comenta sobre seu tratamento, a apendicite aguda foi abordada de forma excelente no livro O Físico do Noah Gordon e a insuficiência cardíaca no livro Xamã do mesmo autor. Thomas De Quincey faz uma trágica descrição dos efeitos da dependência do ópio, a intoxicação por metal pesado (mercúrio) e seus efeitos psicotrópicos estão no Chapeleiro Louco do Lewis Carol, no mesmo livro estão também as poderosas distorções de percepção causadas por cogumelos do tipo Amanita muscaria, tão importantes para fisiologia humana que denominaram toda uma família de receptores bioquímicos, os receptores muscarínicos.

Na literatura de terror a figura do médico aparece com frequência, no livro Drácula (Bran Stoker), o fenomenal Dr. Van Helsing luta não só pela vida, mas também pela alma de seus pacientes, a arte existe para o bem e é sacrifício e vocação, a técnica é apenas a espada que um cavalheiro empunha contra o mal. Mary Shelley com seu Frankenstein, narra o horror do inconformismo para com a realidade, o desejo infantil de considerar sua dor mais importante que a ordem necessária do mundo, da ferida nasce uma mente revolucionária e em tais homens o talento acaba por servir ao mal, o Dr. Frankenstein é a personificação do talento técnico que aflorou antes da maturidade. Semelhante a Frankenstein, o Reanimator de H. P. Lovercraft conduz uma sombria narrativa onde o delírio revolucionário nasce da tendência de colocar a técnica como fim único da arte, é a ruína causada pela vaidade. Robert Louis Stevenson em O Médico e o Monstro, nos mostra um ser dividido, as paixões o impulsiona para um caminho danoso e a racionalidade o prevenia de adentrar no caos, a tensão que por vezes é insuportável levou a tentativa de manipulação química da própria alma, o fracasso do Dr Jekyll está, de certa forma, na composição de cada comprimido tomado com o intuito de ser feliz.

A imersão nos livros técnicos sem o necessário treinamento literário é produtora de profissionais mentalmente aleijados, a dureza das informações relatadas de forma sucinta esbarra com a incapacidade imaginativa e deficiência de abstração, os relatos clínicos serão lidos, porém não serão traduzidos da camada linguística para o mundo real. Isso gera uma distorção de percepção que acaba sendo propagada como verdade: a perigosa ideia que a teoria e prática são divorciadas.

O homem transcende o tempo através do acúmulo de experiências, impressões e aprendizado, o conhecimento teórico nasce da necessidade de descrever a prática, esse processo é invariavelmente imperfeito, jamais um ser humano será capaz de relatar todas suas experiências, muito menos de aprender todas as demais já escritas. Transitar do ambiente linguístico para a realidade e vice-versa é arte que exige longo e extenuante treinamento, sendo impossível fornecê-lo no curto período universitário, um erro de diagnóstico pode nascer da falha na formação daquele menino que hoje atua como médico.

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